ENSAIO - Minha terra: memórias e identidade
Como
será ter sido criança? Quantos
mistérios dessa terra que escolhi... Quantas lembranças se farão presente em
mim, embalado nesta experiência. Reviverei muitas lembranças da memória de minha
infância, que talvez estejam guardadas nos álbuns de minha mente e de meus
pensamentos, que mesmo sendo pensamentos distantes, me convida a olhar para
mim, para minha vida e para terra que nasci. A mesma terra que trago um pouco
comigo, nesta simples embalagem, como uma coxa de retalho que traz parte de
minha história de criança.
Àquela terra, que por tantas vezes pisei, corri e chorei
de tanta emoção e que vivi os dias mais felizes da minha vida; começo de vida, sendo
mais exato. Foi ali, naquela fazenda, às marques de uma estrada movimentada,
que aprendi ser eu mesmo, onde também brotou as primeiras motivações pelos
livros e pela leitura.
Esse pouco de terra é parte de mim, da minha vida e de
quem sou e me tornei. Retalhos e retratos de uma época, escondida na linha do
tempo de minha história, entre os anos 70, e começo dos anos 80. Ali, às
margens do rio Surubim, onde o dia amanhecia muito cedo enfeitado pelo canto do
galo e a sinfonia dos pássaros. Ali a inocência de criança reinava. Não existia
relógio e o tempo era marcado pela sombra do sol, que era projetada ao solo.
No
terreiro de terra escura, em frente à casa de madeira, o sol projetava suas
primeiras sombras, que pareciam monstros, devaneios, sonhos e os primeiros
desenhos do dia. Eu ficava ali a observar as mudanças que ocorria à medida que
o sol avança em direção ao centro do céu. No lado direito dessa casa estava o
curral, onde eu e meus irmãos tomávamos leite fresco, tirado diretamente das
tetas da vaca chamada mimosa, leite quente e saudável, um costume daqueles
tempos. Leite sem vacinas e sem doenças, e de sabor sem igual.
Por
essa terra, também corri rápido e veloz, para chegar ao rio de água salgada, um
dos prazeres mais almejados por todos nós, eu, os irmãos e os amigos da outra
fazenda em frente à nossa. No rio, onde o perigo parecia não existir. Uma vez
ou outra era preciso fazer um salvamento improvisado de alguém que se arriscava
na parte funda do rio. O rio era a melhor parte de tudo. Onde as águas salgadas
renovavam as nossas energias e fornecia o alimento saudável. Camarão e pitu
eram os meus favoritos. Mas também tinha outra variedade de peixes. Nesse mesmo
rio, passei muitas horas pescado, coisa de criança, que queria ver os peixes de
perto, para tocá-los e apreciar as lindas cores.
Nessa terra, também corri
a cavalo, em disparada em um trecho de rodagem pouco movimentada. Descer e
subir correndo o trecho dessa estrada era adrenalina pura. Crianças andando a
cavalo, coisa de roça, de uma terra de sonhos. Esse lugar traduz as minhas
memórias e de tantas outras pessoas que ali viveram, e que com certeza, tiveram
os melhores dias de suas vidas. Esse lugar, essa terra, vivenciou tantas
histórias... Minha e de outras pessoas. Àquele rio me viu crescer, me conheceu
bem antes de mim, essa terra, que tanto sujou meus pés, com lama ou poeira, faz
parte de minha vida, das minhas primeiras histórias.
Oh ! que saudades que eu tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo,
E despertava a cantar!
Sobre
essa terra eu também disse coisas, coisas que as crianças de hoje não dizem, e
talvez nunca possam dizer ou ouvir. Nessa terra tive sonhos, fantasias... Coisa
do tipo: engolir pequenos peixes para aprender a nadar. Aprendi, mas não sei ao
certo se foi por causa dos peixes ou por causa do rio, que era uma prática
constante, o desafio de atravessá-lo, que mesmo raso, pra criança parecia um
mar de água. Tudo que senti e vivi, foi graças a essa terra; que guarda a
melhor parte de mim – o sonho de ser criança.
REFERENCIAS
BIBLIOGRÁFICAS
https://poemasdomundo.wordpress.com/2006/06/14/meus-oito-anos/.
Acesso em 12 de jun. 2019.



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